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Foi em Urrós pequena aldeia transmontana quase no extremo norte de Portugal, e nas proximidades da Espanha que numa Quarta-feira ,1 de Dezembro de 1943 nasceu Horácio da Cruz Domingos. E foi naquele lugar perdido por entre as serras que passou a infância, frequentou a escola primária, e nas horas livres guardava o rebanho de ovelhas da família, exposto ao vento, ao frio, à chuva, assistindo com olhos de menino aos ciclos de perpetuação da natureza. Desses tempos guarda a saudade e o gosto pela terra. Terminada a instrução primaria os pais decidem mandá-lo para o seminário dos Carvalhos, mesmo que não viesse a ser padre, essa era a forma utilizada na época por muitos pais que queriam dar aos filhos a possibilidade de estudarem para fugirem à dureza da vida nos campos.
PARA TRÁS FICAVA A TERRA,E A INFÂNCIA Não era fácil, nem feliz a nova vida, do Horácio que trocou a pacatez e simplicidade da sua aldeia, pela ordem e disciplina rigorosa de um seminário, e daquela primeira experiência, restava-lhe a alternativa, de voltar para a casa dos pais ou assumir por sua conta e risco os desafios do destino. Tinha decidido, ali não ficaria. FUGA PARA O PORTO, A CIDADE GRANDE. Na cidade do Porto para onde fugiu, pedindo refugio na casa de uma tia, consegui o seu primeiro emprego numa leitaria, onde metido num uniforme, dava à entrada as boas-vindas aos clientes .Mas pouco tempo depois, o Porto já era uma cidade pequena para o jovem da aldeia onde os homens impuseram a sua vontade de semear a terra aos penedos bravios das serras. Horácio ruma a Lisboa. Na capital do país volta a envergar um uniforme desta vez o de marçano , e porque era trabalhador dedicado cedo subiu ao lugar de caixeiro, mas cedo também compreendeu que estava mais vocacionado para patrão, e aos dezoito anos de idade era proprietário da mercearia Galo na Avenida Madrid, da maior cidade Portuguesa. Decorriam os anos sessenta, tropas Portuguesas encontravam-se envolvidas em três frentes de combate no continente africano, chamado ao cumprimento do serviço militar obrigatório, Horácio é destacado para Moçambique onde completa trinta e oito meses de serviço. DO QUENTE PARA O FRIO Foi através de uns primos e do avô Emídio Cavacas, que ouviu falar de um pais distante, perto do pólo norte, um país frio, mas onde haviam muitas oportunidades, falavam-lhe do Canada, e o espírito aventureiro do Horácio aconselhou-o a partir.
Um bilhete de avião, só ida uma viagem para nova aventura que começou na cidade da Beira em Moçambique com passagem pela Africa do Sul, Congo, Paris em França, para terminar no destino Montreal, onde chegou a 24 de Novembro de 1967. Um bilhete sem regresso e vinte e quatro dólares americanos na carteira tornaram óbvias para as autoridades da imigração as verdadeiras intenções do jovem turista. Sujeito a interrogatório perguntaram-lhe quem vinha visitar e depois de um telefonema para o Aeroporto de Toronto, onde o avô o esperava foi exigida uma fiança de quinhentos dólares, com o empréstimo de alguns amigos o dinheiro foi conseguido, e o Horácio libertado na condição de se apresentar uma vez por semana às autoridades da Imigração. NO CANADA, BRAÇOS PARA ALUGAR Carvoeiro em Barrie foi o seu primeiro emprego no Canadá .Nesses tempos a Rua Augusta em Toronto era para os imigrantes Portugueses o centro comunitário, era por lá que se sabiam as noticias, se encontravam os amigos, que se trocavam informações sobre empregos, e foi aí que um agricultor o recrutou e levou para Barrie cem quilómetros a norte de Toronto, para cortar e empilhar madeira para fazer carvão.Três meses depois o agora carvoeiro pedia ás autoridades o estatuto de imigrante, chamado para uma primeira audição revelou ter no Banco a quantia de 3.400 dolares, nada mau para uma pessoa que chega como turista e não dispõe de autorização para trabalhar, foi sem duvida uma resposta infeliz. Mas a necessidade é a mãe de todas as invenções, e nós Portugueses caracterizamo-nos pela nossa capacidade de improvisar, e o Horácio inventou momentaneamente a venda de uma propriedade, e ao mesmo tempo e porque isso lhe oferecia melhores probabilidades de ser aceite promoveu-se a chefe de cozinha, com experiência no Hotel Ritz uma das unidades hoteleiras mais conhecidas de Lisboa.. Não parecendo acreditar os funcionários do departamento de Imigração questionaram-no sobre como prepararia ele um banquete de luxo para mil pessoas na eventualidade de uma visita de Salazar a Toronto, ao que Horácio respondeu que um chefe como ele de primeira classe, não prepararia a refeição, limitando-se a supervisionar as operações na cozinha, e a dar o toque final nos apuramentos .Atribuíram-lhe o estatuto de imigrante.
Horácio Domingos, agora oficialmente imigrante sente-se com mais liberdade de movimentos e porque é um homem de acção desloca-se para a zona mais ao sul do Canadá, porque se cansou de ser carvoeiro e quer tentar a sorte noutro tipo de trabalho, e foi em Leamington , a mais de 400 quilómetros de Toronto , que surge a nova oportunidade, apanhar tomates, que não era o que mais desejava, mas foi o que encontrou., mas em Leamington encontrou também um novo rumo para a sua vida. A vila de Leamington nas margens do lago Erie é conhecida em todo o Canadá como a capital do Tomate, por lá os campos são férteis e a agricultura tem um peso significativo na economia da região, existe também uma grande frota pesqueira, e é forte a industria de produtos alimentares.A riqueza da área atraiu nos anos 60 e 70 milhares de Portugueses que trabalhavam nos campos, e constituíam a quase totalidade das tripulações dos barcos de pesca.. Depois de terminado o período de arrendamento de uma empresa de abate numa quinta, nas proximidades da localidade de Arthur, Horácio avança para a compra, modernizando com o decorrer do tempo todo o equipamento e aumentando a capacidade de produção, tendo também adquirido terrenos em redor, quadruplicando o tamanho da propriedade. Na actualidade DOMINGOS MEAT PACKERS LTD. é uma das empresas mais modernas e sofisticadas do sector em toda a província do Ontário. Como activista comunitário, o Horácio está sempre na linha da frente, sócio fundador do Clube Transmontano, aquando da sua fundação , e em 1981 foi dos primeiros a aderir ao clube Português de Mississauga, tendo exercido por alguns mandatos a presidência., isto para só mencionar algumas das actividades deste Transmontano de rija temperam sempre pronto, a colaborar em todos os projectos que possam engrandecer, ou dignificar a comunidade à qual tem muito orgulho de pertencer .
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